sábado, 23 de agosto de 2008


No fim, quase próximo de onde termina a vida, a gente é mais ou menos assim: gato-sobre-um-muro-ilusório, do qual temos medo de pular e correr.)

Sem dá hora não me serve, pifou joga fora (joga o relógio-de-pulso na areia). Troço! (raivoso) Se tudo que pifasse a gente jogasse fora, se tudo que não funcionasse mais a gente abandonasse, se tudo que estanca a gente entregasse pro lixo... Perdi a conta dos entulhos que coleciono, minha vida tá cheia disso: de coisa parada, sem funcionar. Mas se deito isso tudo fora, como eu fico sem as minhas coisas entulhadas? (cato o relógio com desespero da areia). Chegar em casa e notar que as minhas coisas mofam: bolor é sinal de vida, alguma cosia tem vida além de mim lá em casa. E guardar é querer conservar a vida do abandono definitivo, do monturo, da rampa. Todo porão é um relicário de coisas vivas. Quando me falta vida em forma de ar, eu tento viver da atmosfera dos quartos mais abandonados da minha casa... Leonor, Leonor que não passa; ou já passou e eu não vi? Pra quê vou conversar! Mas Leonor é tão parecida com essa rua, Leonor é asfáltica, Leonor ronca como um carro quando passa por aqui, Leonor tem a cara dessa hora, dessa hora exata. Se não passa agora, por cima dessa hora, quem deve passar viva e sã? E o que fazer da hora, se Leonor não passa, então?Gato não tem moradia, gato não tem dono; é o que dizem...
Eu sofria quando era criança... Eu sofria muito, porque eu criava um gato e ele me abandonava toda noite, ganhava o mundo. Aí eu ficava numa solidão daquelas...
Mas como eu disse, gato sabe viver sem dono; gente, não! Eu não sei viver sem dono...

Espera é sempre desesperadora. Nunca queiram estar vivos para ter que esperar por alguém ou por algo, mesmo porque quando essa cosia esperada vem, é comum nos decepcionarmos com a sua chegada: ela não traz nada de novo. Estar vivo é sempre está esperando..


1 comentários:

Alice Sales disse...

Ow amiga arrasou...estamos mesmo sempre esperando por alguma coisa,que mesmo quando sabemos o que e ela chega a gente volta a esperar por outra....triste fim.

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Sou inconstante,camaleônica, ser humano em constante mudança, afetada, curiosa, gosto de dias nublados, esses sim me deixam felizes...poetiza da vida, rimar amor com dor. gosto de pessoas, eventos, moda, arte e teatro, meu mundo sem isso não tem graça, e o que é a graça na vida de um homem? simplesmente tudo. pequenas coisas podem me roubar o coração, e igualmente pequenas coisas podem parti-lo. Tento viver cada dia de um modo diferente.